Emoção marca solenidade alusiva ao Dia da Lembrança em Piracicaba

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Auditório lotado para o Dia da Lembrança em Piracicaba – Foto: Davi Negri – MTB 20.499

A emoção marcou a solenidade alusiva ao “Dia Municipal da Lembrança”, na ETEC Ary de Camargo Pedroso, em Piracicaba, realizada no pelo vereador André Bandeira (PSDB), que contou com a presença de autoridades e representantes de entidades como o presidente da Emdhap (Empresa Municipal de Desenvolvimento Habitacional de Piracicaba), João Manoel dos Santos, autor do Decreto Legislativo que institui a solenidade, presidente da Comunidade Israelita de Piracicaba e Região, Marcelo Rosenthal, Jairo Charak Roizen, da Federação Israelita do Estado de São Paulo e da diretora da ETEC, Gabriela Vasconcelos. Aline Bueno interpretou o Hino de Israel (Hatkivah).

Em seus discursos, as autoridades falaram da importância da data, enfatizando que todos devem fazer uma reflexão sobre esse passado trágico e sempre lembrar da data com o objetivo de que as novas gerações, ao lembrar o assassinato de mais de 6 milhões de judeus e de tantos outros grupos, sigam alertas contra manifestações antissemitas, racistas e toda forma de discriminação, exclusão e injustiça social. Para eles, um povo que não conhece a sua história, está condenado a repetí-la.

Durante o evento foram acesas sete velas, representando as minorias exterminadas durante a 2ª Guerra Mundial. Acenderam as velas: Marcelo Rosenthal, representando a comunidade israelita; Paulo Henrique Soares, da CAPHIV, a comunidade LGBT; João Manoel dos Santos, os negros; Guilherme Custódio, os protestantes; Willian Bueno, a maçonaria; Roberto Odival, os testemunhas de Jeová e o vereador André Bandeira, que representou as pessoas com deficiências.

Durante o evento foram acesas sete velas, representando as minorias exterminadas durante a 2ª Guerra Mundial. – Foto: Davi Negri – MTB 20.499

Palestra

Ao fazer sua palestra, o engenheiro naturalizado brasileiro, Thomas Venetianer, contou aos alunos os horrores que viveu durante o holocausto, onde foi afastado de seu pai, passou frio, fome e principalmente muito medo.

Vivendo há mais de seis décadas no Brasil, o palestrante nasceu em Kosice, no leste da atual Eslováquia. A cidade fazia então parte do território da Hungria, cidade onde o nazista Csatary seria, mais tarde, responsável pelo gueto de onde mais de 15 mil judeus seriam deportados a campos de concentração, incluindo parte da família do engenheiro.

Chefiado por Csatary, o gueto de Kosice foi instalado em uma antiga olaria, pouco tempo depois da ocupação nazista da Hungria, em março de 1944. Segundo relatos de sobreviventes, Csatary tratou cruelmente os judeus do gueto, espancando as mulheres e obrigando-as a cavar trincheiras com as próprias mãos.

Venetianer contou que, por pouco, escapou do destino reservado a vários de seus familiares. “Da família da minha mãe, um tio e uma tia foram mantidos no gueto de Kosice e depois enviados ao campo de concentração de Auschwitz. Do lado do meu pai, os que estavam na cidade e não saíram de lá provavelmente foram mortos”, disse Venetianer .

Thomas Venetianer contou aos alunos os horrores que viveu durante o holocausto – Foto: Davi Negri – MTB 20.499

Thomas contou que só conseguiu se salvar quando fugiu, então com sete anos, acompanhado do pai e da mãe, rumo ao território da antiga Eslováquia, duas semanas antes da invasão alemã.

“Meu pai era um homem à frente de seu tempo. Ele pressentiu a perseguição que sofreríamos na Hungria sob controle alemão e decidiu que tínhamos de abandonar nossa cidade o mais rápido possível. Escapamos das ordens de Csatary, mas não dos horrores da guerra”, comentou o engenheiro, que poucos meses depois foi preso junto com sua família pela Gestapo, a polícia nazista, nas montanhas da Eslováquia.

“Assim que fomos presos, eu e minha mãe fomos levados a uma prisão eslovaca, depois ao campo de concentração de Sered e, por fim, ao de Theresienstadt, na cidade de Terezín, hoje República Tcheca. Já meu pai foi encaminhado ao campo de concentração de Sachsenhausen, num subúrbio de Berlim, na Alemanha”, contou.

Antigo quartel militar, Theresienstadt ficou conhecido por abrigar a elite intelectual judaica da época. Era um dos chamados “campos modelo” do nazismo, peça de propaganda da ideologia de superioridade racial do regime. As condições, no entanto, eram precárias.

“As celas eram superlotadas, não tinha as condições básicas de higiene. Dormi na mesma cama que a minha mãe. Fazíamos todas as refeições no quarto, que dividíamos com outras sete pessoas. Em um lugar que caberiam 7 mil soldados, os nazistas encarceraram 60 mil judeus”, relembra Thomas.

Dos 140 mil judeus que passaram pelo campo de concentração, 88 mil foram levados e exterminados em Auschwitz, enquanto 33 mil morreram dentro do próprio campo de concentração, segundo dados do museu Theresienstadt.

Em meados de maio de 1945, o engenheiro brasileiro, foi libertado pelo Exército Russo. Com a Alemanha derrotada e a Europa em frangalhos, a volta para casa, em Kosice, durou quase um mês, não havia transporte para todos, os caminhões estavam lotados e as ferrovias haviam sido destruídas pelos confrontos.

Emocionado, Venetianer conta que demorou para rever seu pai, que teve que vencer o estado de fragilidade em que se encontrava após o término da guerra e dos horrores do campo de concentração.

Pesando apenas 42 kg, meu pai foi retirado do campo de concentração nos arredores de Berlim e obrigado a marchar à força junto com outros milhares de prisioneiros sob a mira das armas dos alemães, que já prenunciavam a derrota. Nessa caminhada sem destino, quem parasse ou caísse era fuzilado. Já sem forças, meu pai caiu e foi alvejado. Permaneceu assim por três dias até ser resgatado pela Cruz Vermelha”, contou emocionado.

Ele contou que durante o tempo em que ficou preso no campo de concentração sentiu muito medo. “O lugar era desconhecido, a presença dos guardas e principalmente a convivência diária com cadáveres traziam medo aos mais jovens. Em segundo lugar, tinha a fome, recebíamos não mais que 800 calorias de comida por dia, menos da metade do recomendado para um adulto médio.

“Passamos muito frio, os cobertores que recebíamos eram insuficientes e de baixa qualidade, o mesmo acontecia com as roupas, e os ambientes não tinham nenhum tipo de aquecimento”, contou Thomas, que ainda tem dificuldades para lidar com mudanças bruscas de temperatura e sempre usa mais roupa que o necessário.

Em março de 1948, duas semanas antes da tomada da Tchecoslováquia pelos comunistas, a família decidiu vir para o Brasil, e escolheram São Paulo, onde já vivia uma prima de sua mãe. No Brasil, aprendeu o português e, paralelamente aos estudos, vendia tapetes de porta em porta na capital paulista.

Thomas Venetianer é formado em Engenharia Eletrônica pela Universidade de São Paulo (USP) e em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Atualmente, está aposentado e presta consultorias a empresas e dá palestras sobre o Holocausto.

Tom, como é chamado pelos amigos, é casado com uma húngara, naturalizada brasileira, pai de duas filhas e avô de cinco netos. Ele conta que só começou a ter dimensão da tragédia, quando chegou ao Brasil, ocasião em que chegou a ter desejo de vingança.

70 anos de Israel

A solenidade foi encerrada com uma homenagem especial aos 70 anos de Israel, quando o assessor executivo Jairo Charak Roizen recebeu uma placa, em nome da Federação Israelita do Estado de São Paulo. “Israel é um país que deseja compartilhar suas conquistas e conhecimento com as nações que mais necessitam. É sempre duro recordar momentos como o Holocausto, mas para se fazer melhor, um dos caminhos é nunca esquecer”, afirmou Roizen.

A Federação Israelita foi homenageada pelos 70 anos de Israel – Foto: Henry Gherson